Assim, de cara, quero deixar bem dito que não foi culpa minha. Recebi o memorando em tempo hábil e assimilei as reprimendas em silêncio. Estive
querendo escrever algo de uma vez por todas, inaugurar os gerúndios e os erros de concordância, quebrar de uma vez com este silêncio abjeto, porém sempre havia alguma coisa em meu caminho – alguma coisa invariavelmente mais interessante do que meus pareceres ensimesmados da vida.
Primeiro, foi a viagem. Quando a simbólica fita vermelha que lacrava este
blog foi cortada, o hímen rompido, a garrafa de
champagne barata quebrada no casco, eu estava com minha mochila imperialista da Nike nas costas conhecendo algumas cidades uruguaias pelas quais havia cruzado de carro em idas anteriores.
Depois veio o cinema, seis sessões seguidas: Memórias de uma Gueixa, Johnny & June, Syriana, Boa Noite e Boa Sorte, Match Point e Fora de Rumo.
Em seguida, interveio o
curling. O
curling, como vocês todos sabem, é uma das modalidades das Olimpíadas de Inverno, e, de longe, meu esporte favorito. Consiste em lançar, sobre o deslizante gelo primeiro-mundista, peças de vinte quilos em direção a três círculos coloridos sobrepostos situados na outra extremidade da cancha. A equipe que conseguir posicionar, ao fim da rodada, a(s) pedra(s) mais próxima, vence a etapa. Entre um lançamento e outro, um par de varredores esfrega freneticamente a pista para moldar a superfície conforme a necessidade da equipe, impulsionando ou travando as pedras deslizantes. O
curling, meus caros, é a mais nobre das contendas. Além do quê, qualquer esporte que não exija esforço físico ou produza suor, seja puramente estratégico
[1] e permita que se tome um chazinho entre um lançamento e outro, é um esporte digno de ser chamado de meu.
Por fim, prenderam-me os livros. Como passaria o feriadão do tal carnaval junto à minha família, no interior do interior, muni a fatídica mochila imperialista da Nike com três edições previamente selecionadas: “Humano, Demasiado Humano”, de Nietzsche; “Inside the Whale”, de George Orwell; e “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, de Goethe. Acabei os devorando compulsivamente e ignorando por completo o tal
post inicial.
Além do quê, havia uma certa ruptura interna quanto à linha editorial a ser seguida, uma discussão da qual escolhi não participar, procurando habituar-me com o fato de que serei voto vencido por aqui devido a um mero detalhe anatômico. (Inclusive, senhoritas, não recebi o briefing das resoluções tomadas quanto a isto. Vai virar oba-oba, é? Lavaremos roupa suja em público e tudo o mais, hein?).
Enfim, o gelo foi rompido de maneira breve e eficiente – não ousaria acostumar-vos com performances suntuosas por saber que o nível não poderia ser mantido por muito tempo (as pessoas cansam, a relação se desgasta, o conformismo puxa uma cadeira na sala e fica por lá, e quando menos se percebe estamos assistindo Oprah ou lendo as páginas de economia do jornal de sua preferência).
“Deus te livre, leitor, de prólogos longos. A citação é de Quevedo, que, para não cometer um anacronismo que com o tempo seria descoberto, jamais leu os de Shaw”.
E “Deus te livre de rir disso”, leitor.
Porque o primeiro é de Borges e o segundo, de Goethe.