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Monday, April 21, 2008
Aforismos para humilhação pública
Descobri que tinha me liquidado quando, dentre os 24,7gb de mp3 do meu ipod, escolhi conscientemente uma música dos Engenheiros do Hawaii pra tocar.
Friday, February 29, 2008
"eu sempre quis uma casa com uma porta vermelha"
- simples, tu compra uma casa e a gente pinta a porta de vermelho.
- não, não pode ser assim! a casa já tem que vir com a porta vermelha!!
- ah daí tu complica. onde que tu vai achar uma casa com uma porta vermelha?
- tem que ter uma.
worry not, srta. ariane! gostaria de avisar que já achei a tal casa, situada em uma das inúmeras sinuosas e estreitas ruas de coimbra.
Tuesday, February 12, 2008
Uruguay
Decidi – porque sou muito pró-decidir-coisas – que iria passar o fim de semana no Uruguay duas horas antes de pegar o ônibus para passar o fim de semana no Uruguay. Saí do trabalho e fiz uma mala[1] e corri para a rodoviária e comprei uma passagem (sobravam duas, as mais ao fundo, ao lado do banheiro). Três horas mais tarde eu estaria me odiando porque alguém havia decidido MORRER dentro do banheiro umas cinco vezes seguidas. E depois sair porta afora fazendo de conta que aquele era o cheiro normal do ônibus.
Item: Bom Ar. Ou aquele outro do guri que quer fazer cocô na casa do Pe-dri-nho.
Mas antes disso, mal começada a viagem, o comissário de bordo (whatever) veio lá da frente do ônibus com uma pilha de livros equilibrada em um dos braços. Ele ia de ser humano em ser humano perguntando “Livro?” e ouvindo um não meio perplexo. Também eu estava intrigado – desde quando se ofereciam livros num ônibus? De qualquer maneira, o comissário de bordo (enfim) parecia muito decepcionado a cada não que ouvia, então, chegada a minha vez, resolvi pelo menos olhar a seleção TTL de literatura de bordo. Começava por um romance em espanhol da Isabel Allende, e poderia já terminar por aí. Em seguida tinha um livro da Anne Rice traduzido pela Clarice Lispector, depois outro em português da Margareth Pilcher, dois do Paulo Coelho (um em português, o outro em espanhol), um sobre ioga (?) e um caderninho de palavras-cruzadas (!) já completado (!!). Agradeci e disse que ficava pra próxima. Mentira. Disse que não. Ponto. Ele foi embora meio cabisbaixo. E trouxe café.
Item: Revista Piauí. Fevereiro de 2008. Estou roubando idéias do texto do Daniel Mason. Pelo menos eu sou honesto.
Mais ou menos nesse momento da viagem (olá, que momento é esse?), o comissário de bordo (hm) pôs um DVD para tocar, um DVD do Cazuza. Não, não era um DVD do Cazuza – era um DVD em homenagem ao Cazuza. Aí, não fosse suficiente o volume alto e as legendas em espanhol (num certo ponto, traduziram “Valeu, Cazuza!” por “Valió, Cazuza!”), surge a bunda (e o resto do corpo, talvez) do Ney Matogrosso na tela, e eu acho que ele estava usando uma mini-blusa ou mini-pedaços-de-roupa, mas eu nunca saberei ao certo porque eu fiquei CEGO PARA O RESTO DA VIDA.
Item: Óculos escuros. Retinas novas.
Pausa para um lanche. Numa bandeja, de baixo para cima: proto-empanada recheada com o que talvez fosse salsicha[2], bombom, bala de goma, um garfo. Nas seis telas espalhadas pelo ônibus, o Arnaldo Antunes está pulando benloco pelo palco.
Item: Bom senso. E a frase de abertura do Discurso Sobre o Método (Descartes, seus infiéis)[3].
O golpe de misericórdia, entretanto, o que me fez pegar o ipod na mochila (ao menos isso eu tinha trazido), foi o filme que escolheram praquela viagem: O Código da Vinci. Dublado em português. Legendado em espanhol. Piada pronta sobre piada pronta. O que pode ser pior que Código da Vinci? Código da Vinci dublado em português. O que pode ser pior que Código da Vinci dublado em português? Etc. etc.
Item: fálico.
______
[1] Com a estupenda característica – eu me daria conta mais tarde – de sobrar itens inúteis e faltar os essenciais.
[2] Talvez seja só eu, mas não conseguir identificar se algo é feito de salsicha ou não já diz muito sobre o que se está comendo. Mas talvez eu só esteja sendo fálico. Olá Bruna.
[3] “Inexiste no mundo coisa mais bem distribuída que o bom senso, visto que cada indivíduo acredita ser tão bem provido dele que mesmo os mais difíceis de satisfazer em qualquer outro aspecto não costumam desejar possuí-lo mais do que já possuem.” (p.1, talvez, preguiça de ir lá conferir)
Item: Bom Ar. Ou aquele outro do guri que quer fazer cocô na casa do Pe-dri-nho.
Mas antes disso, mal começada a viagem, o comissário de bordo (whatever) veio lá da frente do ônibus com uma pilha de livros equilibrada em um dos braços. Ele ia de ser humano em ser humano perguntando “Livro?” e ouvindo um não meio perplexo. Também eu estava intrigado – desde quando se ofereciam livros num ônibus? De qualquer maneira, o comissário de bordo (enfim) parecia muito decepcionado a cada não que ouvia, então, chegada a minha vez, resolvi pelo menos olhar a seleção TTL de literatura de bordo. Começava por um romance em espanhol da Isabel Allende, e poderia já terminar por aí. Em seguida tinha um livro da Anne Rice traduzido pela Clarice Lispector, depois outro em português da Margareth Pilcher, dois do Paulo Coelho (um em português, o outro em espanhol), um sobre ioga (?) e um caderninho de palavras-cruzadas (!) já completado (!!). Agradeci e disse que ficava pra próxima. Mentira. Disse que não. Ponto. Ele foi embora meio cabisbaixo. E trouxe café.
Item: Revista Piauí. Fevereiro de 2008. Estou roubando idéias do texto do Daniel Mason. Pelo menos eu sou honesto.
Mais ou menos nesse momento da viagem (olá, que momento é esse?), o comissário de bordo (hm) pôs um DVD para tocar, um DVD do Cazuza. Não, não era um DVD do Cazuza – era um DVD em homenagem ao Cazuza. Aí, não fosse suficiente o volume alto e as legendas em espanhol (num certo ponto, traduziram “Valeu, Cazuza!” por “Valió, Cazuza!”), surge a bunda (e o resto do corpo, talvez) do Ney Matogrosso na tela, e eu acho que ele estava usando uma mini-blusa ou mini-pedaços-de-roupa, mas eu nunca saberei ao certo porque eu fiquei CEGO PARA O RESTO DA VIDA.
Item: Óculos escuros. Retinas novas.
Pausa para um lanche. Numa bandeja, de baixo para cima: proto-empanada recheada com o que talvez fosse salsicha[2], bombom, bala de goma, um garfo. Nas seis telas espalhadas pelo ônibus, o Arnaldo Antunes está pulando benloco pelo palco.
Item: Bom senso. E a frase de abertura do Discurso Sobre o Método (Descartes, seus infiéis)[3].
O golpe de misericórdia, entretanto, o que me fez pegar o ipod na mochila (ao menos isso eu tinha trazido), foi o filme que escolheram praquela viagem: O Código da Vinci. Dublado em português. Legendado em espanhol. Piada pronta sobre piada pronta. O que pode ser pior que Código da Vinci? Código da Vinci dublado em português. O que pode ser pior que Código da Vinci dublado em português? Etc. etc.
Item: fálico.
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[1] Com a estupenda característica – eu me daria conta mais tarde – de sobrar itens inúteis e faltar os essenciais.
[2] Talvez seja só eu, mas não conseguir identificar se algo é feito de salsicha ou não já diz muito sobre o que se está comendo. Mas talvez eu só esteja sendo fálico. Olá Bruna.
[3] “Inexiste no mundo coisa mais bem distribuída que o bom senso, visto que cada indivíduo acredita ser tão bem provido dele que mesmo os mais difíceis de satisfazer em qualquer outro aspecto não costumam desejar possuí-lo mais do que já possuem.” (p.1, talvez, preguiça de ir lá conferir)
Thursday, January 31, 2008
Salvador parte II: da etnografia insuficiente
[...]
O clima, para início de conversa, o mesmo para doze meses e uma vida, a loucura dos sóis em demasia, da luminosidade que tudo abarca e revela. Também aqui a derrocada do ambíguo, do claro-escuro, do entrevisto. Enxerga-se tudo, tudo foi simplificado para ser melhor e mais facilmente compreendido. Não há mistério, nem uso para a imaginação. Aqui, as coisas são unicamente aquilo que parecem ser, uma semelhança já historicamente consolidada e que não deixa margem a novas interpretações. Assim explicam-se as artes locais: através da recusa do escuro. Sobretudo a pintura baiana, esta que reproduz os mesmos padrões oleosos e gastos, mantém o ranço de uma espécie de art naïf desvirtuada, minada por uma sexualidade grosseira, na qual a perspectiva, desajeitada ao extremo, parece remeter a épocas em que o Homem não havia ainda se posicionado frente ao mundo, e vivia sucumbido por ele. Sim, a perspectiva, ou, mais especificamente, a sua ausência, é o que de mais emblemático pode-se supor sobre esse povo: trazem a espiritualidade próxima demais do coração, e, por conseqüência, abandonam-se irracionais aos caprichos do absoluto. Seria absurdo, como sempre foi, afirmar que os pintores baianos desconhecem a perspectiva – eles apenas escolhem reproduzir cegamente uma fórmula consagrada e de pouca valia. Não é nem questão de indagar se a arte determina o povo ou é por ele determinada: a impressão que se tem é a de circularidade – ambos se retroalimentam da mesma morosidade histórica e torpor intelectual característicos dos climas excessivamente tropicais.
[...]
O clima, para início de conversa, o mesmo para doze meses e uma vida, a loucura dos sóis em demasia, da luminosidade que tudo abarca e revela. Também aqui a derrocada do ambíguo, do claro-escuro, do entrevisto. Enxerga-se tudo, tudo foi simplificado para ser melhor e mais facilmente compreendido. Não há mistério, nem uso para a imaginação. Aqui, as coisas são unicamente aquilo que parecem ser, uma semelhança já historicamente consolidada e que não deixa margem a novas interpretações. Assim explicam-se as artes locais: através da recusa do escuro. Sobretudo a pintura baiana, esta que reproduz os mesmos padrões oleosos e gastos, mantém o ranço de uma espécie de art naïf desvirtuada, minada por uma sexualidade grosseira, na qual a perspectiva, desajeitada ao extremo, parece remeter a épocas em que o Homem não havia ainda se posicionado frente ao mundo, e vivia sucumbido por ele. Sim, a perspectiva, ou, mais especificamente, a sua ausência, é o que de mais emblemático pode-se supor sobre esse povo: trazem a espiritualidade próxima demais do coração, e, por conseqüência, abandonam-se irracionais aos caprichos do absoluto. Seria absurdo, como sempre foi, afirmar que os pintores baianos desconhecem a perspectiva – eles apenas escolhem reproduzir cegamente uma fórmula consagrada e de pouca valia. Não é nem questão de indagar se a arte determina o povo ou é por ele determinada: a impressão que se tem é a de circularidade – ambos se retroalimentam da mesma morosidade histórica e torpor intelectual característicos dos climas excessivamente tropicais.
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Wednesday, January 30, 2008
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